Marcelo Bentivoglio

Marcelo Bentivoglio

🚂 Todo Mundo vai ter a sua Fintech e ser Banco

Já ouviu a famosa frase de Bill Gates 'Banking is Necessary, but Banks are Not', uma possível tradução seria: realizar operações bancárias é necessário, mas os bancos não são necessários. Ou seja, a economia e as pessoas precisam realizar operações financeiras, mas estas podem ser realizadas em qualquer lugar, não precisamos mais dos Bancos. Tchau, tchau 👋🏼

Existem duas grandes ofertas de "serviços financeiros" no Brasil: uma para pessoas que já possuem bom acesso à crédito e outra para quem não tem patrimônio. Essa mesma lógica se aplica para empresas, existem dois tipos de 'acesso à capital', um que serve as grandes e poderosas empresas, e outro que atende as pequenas. A lógica do mercado é simples, quanto menos dinheiro você tem, menos acesso a capital você também terá. Isso significa que os pequenos (ou mais pobres) pagam mais caro, e os grandes e mais ricos, pagam mais barato.

Por trás dessa história existem vários pontos importantes, dentre eles temos: (i) dado que uma pessoa ou empresa é mais rica, o risco de não pagamento é menor, portanto a taxa de juros (ou custo) também é menor; (ii) dado que as pessoas ou empresas que possuem mais patrimônio já estão inseridas no mercado a mais tempo, significa que existe mais histórico de transações, novamente um risco menor e por consequência uma taxa de juros menor; (iii) historicamente, o mercado financeiro brasileiro é concentrado em poucos bancos: Itaú, Caixa Econômica Federal, Banco do Brasil, Bradesco e Santander concentram mais de 80% dos serviços financeiros, tamanha concentração desincentiva competição e proporciona uma situação muito confortável para os bancos.

A boa notícia é que o Banco Central do Brasil está com uma agenda extremamente positiva para o nosso país. De forma proativa, o BC e seus gestores estão impulsionando novos métodos e modelos de negócios. Isso cria um ambiente mais competitivo com menores taxas. Veja o Instagram oficial do Banco Central do Brasil.

O objetivo é criar novas maneiras de impulsionar novos produtos sem aumentar ou criar riscos sistêmicos, dado que é importante garantirmos a segurança da informação e das transações realizadas.

Parabéns ao Banco Central do Brasil:

  1. Novas modalidades de instituições financeiras: SCD e SEP,
  2. Novo sistema de transferências eletrônicas PIX,
  3. Agenda da liberdade econômica e Open Banking.

Oportunidades para as Fintechs

As oportunidades começam no modo de ofertar produtos. As Fintechs, empresas de tecnologia e serviços financeiros, buscam disponibilizar ferramentas de fácil acesso e de fácil visualização. Elas criam experiências super simples (UX) com interfaces bonitas, intuitivas e de fácil manuseio (UI). Já os grandes bancos, gastam milhões de reais anualmente simplesmente para manter os sistemas legados, deixando um espaço enorme para desenvolver melhores experiências e melhores produtos.

Outro fator que facilita muito a vida das Fintechs nascentes é o Banking as a Service. Esse é o conceito que o Bill Gates comenta, que é 'alugar a capacidade de oferecer serviços bancários'. Ou seja, uma empresa qualquer pode alugar a capacidade de oferecer serviços bancários e de fato oferecer aos seus clientes. Por exemplo, o Sr Gustavo é dono de uma padaria no seu bairro, toda vez que você vai até a padaria, você nota que existem clientes pedindo para comprar fiado, mas o Sr Gustavo não vende fiado pois sabe que o risco de nunca mais receber é alto. Mas, graças ao Banking as a Service (BaaS), o Sr Gustavo pode alugar a capacidade de oferecer crédito de uma instituição financeira. Com essa possibilidade em mãos, o Sr Gustavo pode agora oferecer crédito em sua padaria sem se preocupar em vender fiado.

O BaaS está acontecendo. Lembra de quando usávamos celulares analógicos? Depois, surgiram os smartphones com capacidade para rodar aplicativos de terceiros. Vivemos no mundo dos aplicativos, parece que foi "de repente", mas na verdade foram anos de tentativas, erros e acertos até chegarmos no ponto que estamos hoje. O sistema financeiro não é diferente, estamos ha anos tentando e mudando aos poucos, mas agora é a hora do "de repente".

Tem que ser mais fácil, a tecnologia permite isso...

  1. APIs, programas de aplicações entre interfaces, permitem que dois sistemas se comuniquem através da troca de dados. Uma ponta envia dados, a segunda ponta recebe os dados, processa internamente, gera novos dados e devolve novos dados, a primeira ponta então recebe os novos dados gerados e processa internamente.

Vamos traduzir para o mundo de uma Fintech usando o serviço de BaaS de uma Instituição Financeira (IF). O cliente da Fintech baixa o app, faz seu cadastro, passa por uma análise (proprietária da Fintech, porém respeitando as leis de 'Conheça seu Cliente ou KYC'), e aplica para um crédito pessoal sem garantia (poderia ter sido outro produto). A Fintech portanto formata os dados desse cliente e envia esses dados através de uma chamada API para uma instituição financeira IF. Essa IF, por sua vez, usa esses dados internamente, cria-se um novo cliente, cria-se uma nova operação de crédito, etc. e devolve novos dados para a Fintech através de uma resposta da API. A Fintech por sua vez utiliza esses dados retornados para apresentar a proposta final para o cliente, que por sua vez assina eletronicamente para concluir a operação.

De forma simples e resumida, isso é o que acontece por trás de um aplicativo de crédito de uma Fintech que não é uma instituição financeira.

  1. Customização e Diferenciação. O cenário apresentado no item (1) ocorre quando uma Fintech é correspondente bancária da IF e existe uma relação formal para emissão dessa operação de crédito. Assim, cria-se novos modelos de distribuição com alta capacidade de diferenciação, pois cada Fintech pode aplicar a sua experiência para o cliente final.

  2. Dados precisos. Conforme o mercado financeiro se moderniza, a qualidade dos dados disponíveis para consulta, quando consentido pelo cliente final, é maior. Isso significa que novos modelos de análise podem ser aplicados e com melhores modelos, melhor é a precificação do produto. Isso beneficia o cliente final que pode acessar serviços financeiros mais baratos e mais justos.

Todo mundo vai ser Banco (conceito de Embedded Fintech)

A primeira onda de serviços financeiros digitais permitiram que clientes pudessem ter uma experiência única e muito melhor quando comparada a experiência analógica. A onda que estamos surfando está criando a infraestrutura necessária para que qualquer empresa possa ser um banco. Isso significa que você pode comprar pão na padaria do Sr Gustavo e sair com um crédito pessoal. Antes, era preciso ter uma licença bancária para oferecer serviços financeiros. Depois, as Fintechs nasceram alugando as licenças das instituições financeiras. Agora, a tecnologia está sendo construída para que qualquer empresa possa oferecer serviços financeiros.

A tecnologia quando aplicada em sistemas legados ajuda a melhorar e resolver problemas do passado. Mas, quando aplicada em modelos completamente inovadores, é capaz de potencializar um mercado totalmente inexplorado.

O sistema financeiro atual ainda favorece aqueles que são privilegiados. Poucos possuem as melhores opções de serviços financeiros e muitos dependem da boa vontade do gerente bancário para conseguir os produtos mais caros e abusivos.

A tecnologia democratiza os serviços financeiros, permite que empreendedores sejam criativos e resolvam problemas antigos de forma inovadora. É por isso que as Fintechs estão engolindo os bancos. Ainda custa caro não ter dinheiro no Brasil, mas não precisa ser mais assim. Com a agenda positiva do Banco Central do Brasil, a capacidade inovadora dos empreendedores e a tecnologia como pilares dessa transformação, nós teremos um sistema financeiro mais justo no Brasil.